domingo, 4 de abril de 2010

Teatro é comunicação

Para muitos a arte cênica pode parecer algo para poucos, como se fosse uma arte que só quem tem dom pode exercê-la, algo inatingível para pessoas comuns, bem, eu que me julgava incapacitado para interpretar, mais pela timidez de se expôr do que pela capacidade de assimilar um texto dramatúrgico, enfrento esse desafio, não que tenha resolvido todo o problema, mas amenizou muito. Definitivamente o teatro está em nossas vidas e é comunicação, que se dá entre o público e os atores/personagens e resulta numa vertigem.
O interessante é percebermos que todas as pessoas estão interpretando diariamente, quando alguém chega do trabalho cansado após pegar um ônibus lotado e experimentando os maiores males que um cidadão pode passar num transporte coletivo precarizado como o brasileiro, ele simplesmente chega em casa e diz ao seu familiar, gesticula-se e mantêm uma forte expressividade de que aqueles momentos no ônibus foram terríveis e é uma forma de expôr toda a força interior, mesmo que inconsciente. E poucos sabem que observarmos essa nossa vida cotidiana é perfeita para nós atores atuarmos, é a arte imitando a vida. Tão antigas como a arte, as nossas experiências em querer entender a origem do processo criativo já nos levou a exaustivas pesquisas, na maioria das vezes sem uma resposta definitiva.
A grande arte está em comunicarmos ao outro aquilo que está no fundo de nossa alma, independente da arte é o objetivo do artista ser compreendido.

Douglas N. Dos Santos é: Professor e ator amador


miércoles, 9 de diciembre de 2009

Alfabetização de crianças, jovens e adultos no município de Diadema

Estudos avançados:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142001000200007&script=sci_arttext

Pedreiro de Diadema, produz documentário.

Pedreiro de Diadema produz documentário e dá entrevista para Tevê Cultura!


Pedreiro de Diadema na Tv Cultura:


http://www.youtube.com/watch?v=QC1HCknF19Q

martes, 24 de noviembre de 2009

Otelo - Adaptação na Cia do Nó

ROTEIRO – OTELO Foco carta, moira (Desdêmona – predestinada – maldição da família) Douglas Nascimento - Marcelo Caio do Monte Brandão - Thiago Aline Ferezin – Desdêmona ou Avó Fernanda de Castro – Desdêmona ou Avó Laila Cricca – Desdêmona - fantasma Samantha Aires - Roberta Marcela Gallinucci – Milena Amanda Massaro - Jorge Esmeralda Thomé - tia Texto: Renata e Esdras Domingos Prólogo Avó - Eu gosto das cartas: elas tem magia, brilho. Me aquece pensar que a pessoa que escreveu uma carta tirou um tempo de sua vida para se dedicar àquele pedaço de papel, que seu cérebro junto ao seu coração foi fiando, fiando e que a teia pronta se encontra ali, naquela carta. Lindo artesanato de letras. Coisa de mãe, quente colo materno. Nesse mundo de hoje, não temos mais tempo pra essas coisas. E-mails, os recados no Orkut, as mensagens no MSN são muito frágeis pois são feitos com a facilidade de quem estala um dedo. Uma carta não, uma carta tem cheiro de história, do bolor pálido, âmbar, da poeira que encanta, da Europa dos tempos antigos, do Mediterrâneo, suas gentes e tomates suculentos. As cartas também demoram a chegar e geram uma ansiedade teatral. Os e-mails não, tem a sua serventia, mas chegam na mesma hora, sem graça, nem expectativa, e ainda somem com facilidade, com um vírus qualquer ou uma simples clicada. As cartas não se perdem jamais, se você cuidar delas, as terá para sempre. Desdêmona fantasma - Aquela carta ali. Oh carta, cale-se. Não me contes nada. Quero quem sabe nunca te descobrir. Posso esperar um tempo, infinito enquanto dure e assim guardar sempre nesse tempo a esperança de algo bom que poderá acontecer a qualquer momento. Avó – Leia, filha. Leia. Desdêmona – Vó, que saudades. Avó – Tenho muitas histórias para te contar. Agora leia a carta. Desdêmona fantasma – Não, não leio. (sai correndo) Desdêmona fantasma não meche na carta e sai. As personagens vão entrando uma de cada vez. Uma pega a carta, os outros vão entrando e lendo a carta que passa de mão em mão e volta para o foco. Desdêmona viva olha para a carta. Marcelo entra. Cena 1 – Desdêmona e Marcelo Marcelo – Você tem a cabeça nas nuvens. Desdêmona – E os pés no chão. Olhe ao redor. Está tudo pronto, meu amor. Nos casamos daqui há dois dias e serei então a mulher mais feliz do mundo. Marcelo – Você fez tudo isso sozinha? Desdêmona – Minha tia me ajudou. Ela vai dormir aqui essa semana. Veio de tão longe coitada. Marcelo – Não gosto dela. Ela me olha de um jeito estranho. Desdêmona – Você é muito desconfiado. Deixe a minha tia em paz e se divirta com as nossas coisinhas. Vamos dar uma volta? Marcelo: Vamos. Quando? Desdêmona: Hoje. Marcelo: Hoje? De jeito nenhum. Não posso querida. Tenho muitas coisas para fazer. Você não quer ter uma lua de mel tranqüila? Desdêmona: Quero. Marcelo: Então? Desdêmona: Só um pouquinho. Estou muito tempo aqui dento, preparando tudo. Marcelo: Vá com a sua tia. Desdêmona: A minha tia já está dormindo e eu queria mesmo ir com você. Marcelo: Estou cansado, querida. Amanhã, nós vamos. Desdêmona: Vou dar uma volta então. Marcelo: Sozinha? Desdêmona: Sim. Por que? Marcelo: Por nada. Desdêmona: Até já. Marcelo: E aquela carta? Desdêmona: Que carta? Marcelo: Aquela ali. Desdêmona: Ah, sim. Aquela carta. Não sei. Recebi hoje. Estou guardando para abrir depois, na sexta-feira. É para dar sorte. Marcelo: Você tem cada coisa esquisita. Desdêmona: Eu me divirto, só isso. (Desdêmona sai) Cena 2 – Marcelo Marcelo: Rude sou de fala, estranho ao doce linguajar da paz. Sobre muito pouca coisa posso falar no vasto mundo se não for de batalhas e ferramentas. Disso entendo bem. Por isso, quando exponho assunto próprio, vindo de meu coração, não sei fazê-lo bem. Que drogas, que feitiços, que conjuros, que mágica potente usou essa mulher? Eu que vivi sempre só, preocupação nenhuma a não ser com meu próprio prato de comida, me vejo derretido, amarrado, obcecado. Ela se diverte. O que isso quer dizer? Ela se diverte. E essa carta ainda. Quem me dera poder seguir seu rastro, Desdêmona. Cena 3 – Marcelo, Thiago e Jorge Entram Thiago e Jorge, um de cada lado. Thiago - Marcelo e Jorge, que bom vê-los. Marcelo – Não foi trabalhar hoje? Thiago: Está perguntando como amigo ou como chefe? Marcelo – O que é isso, Thiago? Fiquei preocupado com você, de verdade. Você não costuma faltar sem avisar. Thiago: Eu estou muito indisposto. Estou com uma forte dor de cabeça. E você Jorge? E a nova sala, novo posto, tudo novo? Jorge: Estou muito feliz pela oportunidade que o Marcelo está me dando. É um grande reconhecimento. Thiago: Eu também estou muito feliz por você. Por vocês. Marcelo: Logo chega o seu dia, Thiago. Não me esqueci de você. Thiago: Não estou pensando nisso. Esquece. Marcelo casa sábado! Viva! Marcelo: É isso aí, estou transbordando de felicidade. A Desdêmona é a parte que falta em mim. Jorge: Está apaixonado. Marcelo: Estou sim, como nunca imaginei ficar. (saem Jorge e Marcelo, Thiago vê Roberta a escuta escondido) Cena 4 – Milena e Thiago Roberta : Ele me amava. Mostrou-me tantas vezes no céu as pequenas estrelas e apontava os planetas em noites de escuridão. Ele me amava, eu tenho certeza. Quando eu nasci, ele me disse várias vezes, fui a sua alegria. Tenho lembranças de noites e tantos dias de passeios, de corridas, de risos sem fim. Até que ele cresceu e eu cresci. E os risos se transformaram em sorrisos. Ele me olhava e não entendia e eu tentava mostrar o meu amor em vão. Mas só enxerga aquele que quer, quem tem propensão. Marcelo nunca me vira como sua mulher, mas como irmã ou filha talvez. Que dor sinto eu. Sábado se aproxima, o dia mais escuro de minha vida, a dor mais profunda em meu coração. Oh, meu doce e rude Marcelo. Adeus, enterro aqui o meu amor por ti, no dia de seu casamento. Thiago: Peguei. Roberta: Não, por favor, não conte a ninguém. Thiago: O que é isso, Roberta? Que susto é esse? Até parece que eu sou uma pessoa que mereça tanta desconfiança. Roberta: Não é isso. É que você ouviu sem querer, algo que eu disse sem querer. Disse para mim mesma e essa conversa acabou aqui. Thiago: Que falta de esperança! Roberta: Não, não posso fazer mais nada, Thiago. Tivesse eu feito antes, agora é tarde demais. Thiago: Não diga isso. Vai jogar a sua vida fora? Estou dizendo como seu amigo. Quem sabe, Marcelo também não guarde um amor por você em segredo. É para o seu bem e do Marcelo, que também é meu amigo. E se ele casa com a Desdêmona dessa forma, também não fará dela uma mulher feliz. Roberta: Ele comentou alguma coisa com você? Thiago: Um dia deixou escapar. Depois ficou rubro de vergonha. Roberta: É mesmo? Me conte mais. Thiago: Não posso fazer isso. O Marcelo me mataria se soubesse. Roberta: Obrigado Thiago, você me devolveu a felicidade. Thiago – Mas eu não disse nada! Roberta – Eu entendi. Thiago- Não jogue a sua vida pela janela, ouviu, menina? Ligo pra você mais tarde. Cena 5 – Marcela e Thiago Milena: Não consigo dormir. Thiago: O silêncio ajuda. Fique quietinha, meu amor. Milena: Você encontrou o Marcelo hoje? Thiago: Claro. Milena: E você não notou nada? Não aconteceu nada? Thiago: O que, mulher? Milena: É que ele e Desdêmona se casam sábado. Thiago: Sim e daí? Milena: Nada. Nadinha. Thiago: Então, boa noite. (silêncio) Milena: Eu gostaria de ser a madrinha, mas eles convidaram o Jorge e a esposa. Não sei quando fizeram esta amizade, pois Desdêmona era unha e carne comigo. Thiago: Pare de futricar! Milena: Credo, o que você tem? Thiago: Sono. Milena: Ãhn... (silêncio)É que eu pensei ter visto a Desdêmona receber uma carta pelo correio. Thiago: E o que tem? Milena: Nada. Nadinha mesmo. Mas é estranho alguém receber uma carta hoje em dia, não é mesmo? Nunca mais recebi uma. (silêncio)Nem flores. Thiago: Oras, Milena, não me tire do sério. Milena: Ai, Thiago, não é estranho? Eu cheguei a pegar a carta na mão, mas o vento soprou e ela tombou para as mãos de Desdêmona. E então, eu estava do lado, esperando que ela abrisse, e a atormentada disse com palavras poéticas e idiotas que guardaria a carta até sexta. Quer dizer, ela é uma tremenda desmancha prazeres. Não consigo dormir. Não consigo. Thiago: A Desdêmona é esquisita. Tem a cabeça nas nuvens. Milena: Gostaria eu de ser assim. O que foi? Thiago: Me deixe sozinho. Milena: Essa é boa. Vai dormir no sofá. Thiago: Saia. Saia. Saia. (Marcela sai) Essa é a minha chance. Já disse muitas vezes e torno a dizê-lo pela centésima vez: odeio o Marcelo; tenho para isso motivos arraigados no coração. O seio do tempo encerra muitos acontecimentos que terão de concretizar-se. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vi atuar com mais certeza. Jorge é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Jorge mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Jorge e seu todo insinuante o predispõem a tomar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. Em frente! Marcha! O posto será meu, nem que para isso uma tragédia aconteça. Está fácil, muito fácil. As sementes estão soltas por aí. Só é preciso germiná-las. Acorde dia, preciso trabalhar. Cena 6 – Jorge e Thiago (Jorge passa) Thiago – O vento sopra ao meu favor. Jorge, que bom vê-lo! Jorge – Meu amigo, o que está fazendo por aqui? Thiago – Vim visitar meu irmão. Jorge – Eu não sabia que tinha irmãos. Thiago – Pois é... E o Marcelo? Jorge – O Marcelo? Não sei. Não sei, por que? Acho que está no escritório. Thiago – Não, você é seu melhor amigo e não sabe? Ai, por favor, Jorge. É que eu pensei... Jorge – Fale logo, o que aconteceu. Thiago – Bom, não era nem para eu estar sabendo. É que eu ouvi por acaso a discussão. Jorge – Que discussão? Thiago – Jorge, por favor, não me tome por fofoqueiro. Não conte para o Marcelo que eu estou te dizendo, por favor. Ele nem sabe que eu ouvi. Só estou preocupado com ele. Jorge – Estou ficando nervoso. Thiago – A Desdêmona desmanchou o casamento. Jorge – O que é isso, meu amigo? Ela ficou louca? Thiago – Parece que ela desconfia que o Marcelo está se encontrando com a Roberta, às escondidas. Jorge – Mas isso não é verdade. Thiago – Pois é, vá você convencer uma mulher enciumada. Jorge – Pois eu vou. Não vou deixar essa união acabar assim. Vou falar com a Desdêmona. Dê alguma desculpa ao Marcelo. Não vou ao nosso encontro. Aproveito esse tempo em que ele não está lá para acabar com essa patacoada da Desdêmona. Não diga que irei, sim? Thiago – Claro, boca fechada. Esse é o nosso segredo. Cena 7 – Tia Tia – Desdêmona, pobre Desdêmona. Já conheci tantas mulheres assim. Procuram no homem que escolheram um sonho que perseguem desde pequenas. Não é que os homens sejam ruins, eles são eles mesmos. A mulher é que não deve pensar poder modificá-los. É muita onipotência nossa. Fazer brilhar os móveis, esperando alguma recompensa. Esses brilhos são opacos aos olhos dos maridos. Eles deixariam assim mesmo, móveis foscos, toalhas viradas, camas por arrumar. Oh, Desdêmona! Vim para te proteger como filha, sou mãe no lugar da tua que se foi tão cedo. Tão logo tornou-se filha em meu coração que está aberto desde então para ti, para teus anseios, ansiedades e para acolher seu sofrimento . Quando vier... quando vier... ele será inevitável. Vejo a hora se aproximar. Está prometida à desgraça. O ciúme corrói qualquer pensamento, transforma o que é bom em nada, transforma o mundo em uma pequena casca de noz, as maravilhas em coisas corriqueiras, banais, a vida sem esperança. Marcelo não é ruim, é ciumento, basta uma faísca. Já vi essa história. Sua avó perdeu os sonhos assim. Disse que lerá a carta na sexta, aguardo exaustivamente como os ciumentos. Estou pronta. Avó – Fio por fio, vejo a mesma cena. Estou pronta. Filha não se desespere. Feche seus olhos para não sentir. Sei que uma mãe nunca descansa (tia não vê a avó - Desdêmona fantasma aparece) Leia a carta, querida. Está na hora. Desdêmona fantasma – Já vou, vó. Ela sempre quer pentear meus cabelos, quando estou eu a correr. As avós sempre são assim. Já vou vó. Já vou. (saem os fantasmas, tia suspira) Cena 8 - Cena do Thiago e do Marcelo Marcelo - Estávamos precisando relaxar um pouco não é Thiago? É muito trabalho ao longo do dia. Thiago - Concordo com você meu amigo, apesar de ser um ótimo trabalho ainda sim é um pouco desgastante. Até merece um brinde. Ao sucesso do nosso banco. Marcelo - Com certeza, nós batalhamos muito pra deixar esse banco como está, que bom que eu sempre tive ótimas pessoas ao meu lado, como você, Jorge, Roberta, trabalhando comigo. Thiago - É sim, Jorge e Roberta são ótimos colegas de trabalho, estão sempre ao dispor do banco, eu até me sinto mais seguro trabalhando com pessoas assim. Marcelo - Eu também, principalmente com você Thiago, faz três anos que trabalhamos juntos, você sempre deu o sangue pelo trabalho, por isso que é meu braço direito e de quebra é meu melhor amigo. Sempre pude confiar plenamente em você, e nos seus conselhos. Thiago - E sempre poderá confiar, estarei sempre ao seu lado não importa o que houver. Mas mudemos de assunto, como está o casamento? Acho que bem, por que sempre o vejo feliz da vida. Marcelo - Meu casamento vai muito bem Thiago, Desdêmona é uma mulher maravilhosa, foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, não achei que tal felicidade realmente existisse, às vezes tenho medo de acordar desse sonho. Thiago - Seria uma pena mesmo. Perder a mulher da sua vida, espero ser só impressão. Marcelo - Como assim, espero ser impressão? Do que esta falando? Thiago - Acho que falei demais, não é nada que deva ser tratado por colegas de trabalho, Marcelo, esqueça o que eu disse. Marcelo - Não, não conseguirei esquecer disso, não Thiago, me diga, não como colega de trabalho, mas como meu amigo que sempre foi, o que você esta me escondendo? Thiago - Não sei se devo me intrometer? Marcelo - Thiago, não faça isso comigo, não me deixe nessa situação, por favor me diga. Thiago - Está bem, mas não me leve por fofoqueiro, já que foi você mesmo quem quis saber... Às vezes, quando sua esposa vem ao banco fazer uma visita à você, eu sinto que ela é vista por olhos mais desejosos que os seus. Marcelo - Mais do que eu? Mas por quem seria? Me diga. Thiago – Preste atenção, você. Não posso dizer. Marcelo – Agora me fale, você começou. Thiago – Eu não deveria... Marcelo – Não saímos daqui hoje. Thiago - Seu mais recente gerente. Jorge. Marcelo - Não é possível, você deve estar enganado, Jorge é leal a mim, assim como você. E ele me ajudou a conquistá-la, ele não seria capaz de tal traição. Não a mim. Ele é meu padrinho de casamento. E a Roberta é amiga da Desdêmona. Não pode ser! Thiago - Assim fico mais tranqüilo, se vocês são tão próximos e você tem tanta confiança nele, ele não seria capaz de algo tão tenebroso, ainda mais depois de ganhar um cargo de tanta importância, no qual ele pode construir uma família sem se preocupar com os gastos, já que o cargo de gerente só é abaixo ao seu de diretor do banco. Marcelo - Thiago, onde quer chegar? Está dizendo que isso tudo seria um plano pra ganhar meu cargo e minha amada? Thiago - Não me atreveria a dizer tal coisa, mas seria muito conveniente pra ele. O ponto central é: você confia na sua esposa Marcelo? Marcelo - Completamente, ela nunca me deu motivos pra não confiar, a única vez que a vi mentir, foi para a tia quando começamos a nos envolver. Thiago - Mentiu para a própria mãe? Sua tia é como se fosse sua mãe, não é? Marcelo - É meio estranho mesmo, mas foi para o bem do nosso amor. Para mim ela nunca mentiu. Thiago - Entendo, seria muita deslealdade ela mentir para você como fez com a mãe, não? Marcelo - Seria, sim, acho que isso acabaria com tudo o que temos conquistado juntos. Thiago - Acabaria? O que você faria se ela o traísse? Marcelo - Nem eu mesmo sei meu amigo. Thiago - Marcelo? Marcelo - sim? Thiago - Você disse a Desdêmona que chegaria tarde hoje, certo? Marcelo - Certo. Thiago - Onde está Jorge? Marcelo - Ele disse que não estava se sentindo muito bem, por isso não quis vir conosco? Thiago - Seria isso mesmo? Marcelo pensa um pouco em silencio Thiago - Vá para casa, veja como esta sua esposa, se ela esta sozinha, não ligue, apareça sem avisar, se ela não tiver nada a esconder ela vai adorar a surpresa. Não há de ser nada. Marcelo - Acho que sim. Thiago - Vá rápido, estarei rezando pra que eu esteja enganado e que esteja tudo como deve estar. Marcelo - Eu também Thiago, eu também, até mais ver. Marcelo sai. Thiago -Meu veneno vai agindo e meus peões estão posicionados para o sacrifício. Cena 9 – Marcelo vê Desdêmona e Jorge conversando na sala de casa Desdêmona – Marcelo, querido. Chegou cedo. Marcelo – Está surpresa em me ver. Desdêmona – Estou sim. Jorge – Marcelo, eu... Marcelo – Não precisa explicar. Eu sei de tudo. Poupe meus ouvidos de mentiras e ingratidão. Jorge – Amigo, realmente eu te devo uma explicação. Marcelo – Quieto. Quietinho que sou capaz de cortar a sua garganta. Meu sangue pulsa mais do que possa imaginar, mais do que você conhece em vida. Desdêmona – Querido, você está sendo muito rude. Marcelo – Não me venha com essa história, porque a minha grosseria, a minha rudeza é melhor do que a canalhice de vocês. Quer sai sozinha... Saia agora. Desdêmona – Sair sozinha? Sempre convido você para ir junto comigo. Marcelo – Parte do seu plano pérfido que agora arrasta para dentro de casa. Desdêmona – Você está passando do ponto. O que está pensando? Do que está falando? O Jorge está sendo muito delicado em vir aqui. Nem chegou a me dizer a que veio e você entra desse jeito. Não seja bruto. Marcelo – Não me fale assim ou eu perco a cabeça. Abra a carta. Desdêmona – O que isso tem com essa discussão? Marcelo – Abra a carta e leia em voz alta. Desdêmona – Pare com isso. Não vou abrir. Isso é assunto meu. Marcelo – (ao Jorge) Saia de perto, saia! (Jorge sai. Marcelo sai. Desdêmona fica perplexa. Olha para a carta) Cena 10 – Avó e Desdêmona fantasma. (Entra a avó / Avó está concentrada, como se estivesse esperando algo – imagem do metrô – teatro nô / Desdêmona entra correndo) Desdêmona fantasma – Vó, por que me persegue? Avó – Eu não te persigo, filha. Você é quem está perseguindo uma trajetória sem fim. Desdêmona – Insiste comigo. Me deixe livre. Não consigo sair daqui. Você precisa me deixar ir embora. Avó – Olhe aquela carta. Desdêmona – Olha você, de novo! Quer pentear meus cabelos. Quer pentear meus cabelos quando estou eu a correr. (Desdêmona sai / Avó fica na mesma posição e não sai mais / Desdêmona viva está olhando a carta) Cena 11 – Roberta, Milena e Desdêmona (Roberta entra correndo, quando Desdêmona pensava em abrir a carta) Roberta – Desdêmona, preciso falar com você. Desdêmona – Oh, minha amiga, meus sonhos estão se indo. Marcelo não me quer mais e não sei o por quê. Roberta – Eu não sei o que dizer. Desdêmona – Não precisa dizer nada. É bom ter você aqui. (abraça a amiga) Roberta – Meu Deus, como posso eu contar, me desculpar, ela nunca vai entender. Tudo foi destruído, pois nunca tomarei seu casamento por meu. Quero pedir desculpas pelos meus sentimentos, como posso fazer isso? (à Desdêmona) Vou embora. Preciso ir. (Roberta não vai porque entra Milena) Milena – Olha só quem encontro aqui. Meu marido tem olho de gato. Roberta – Milena, console Desdêmona você. Eu preciso ir. Milena – E eu sei bem por que. Roberta – Não. Não, por favor. Milena – Você escolheu para madrinha a sua pior inimiga. Está na sua frente o motivo do seu fracasso. Desdêmona – O que você está dizendo? (tia entra) Tia – Não ouça nada filha. Isso não vai te ajudar. Desdêmona – Agora eu quero saber. O que vocês três sabem e eu não sei? Estou sozinha então? Tia – Não é nada. Isso não é nada. A semente depois de plantada, cresce e fim. Não posso dizer, senão eu mesma a arrasto para o fim. Apenas, abra a carta. Não ouça nada. Desdêmona – O que tem essa porcaria de carta? Eu quero saber o segredo que escondem de mim e que está em suas cabeças. Tia – Milena, vá embora. Milena – Não sem antes dizer que o Marcelo te deixa pela Roberta. Foi ela quem roubou seu coração. (Roberta vai embora correndo. Milena se retira triunfante. A avó está em cena. Entra Desdêmona fantasma. / Estão em cena as duas Desdêmonas, a avó e a tia. Thiago observa de longe) Cena 12 – a morte Thiago – O destino é mesmo cruel e irônico. Como eu. Se eu sou como ele, não posso me dar mal. Ao invés, subirei mais alto, no mais alto posto, maior do que aquele que me foi negado por esse infeliz. Depois da semente plantada, a árvore cresce para todos os lados. Do meu galho, cuido eu e ele vai até o céu. (Entra Marcelo) Desdêmona - Não quero ouvir nenhuma palavra. Marcelo – Não preciso mais de palavras. Nunca fui bom com as frases como queria você. No que sou bom, eu sou melhor que as letras. Sou rude, sou oco de compaixão neste momento. Tia – Não, por favor, não. Marcelo – (à tia) Quieta, que já me atrapalhou demais. Tia – Corra Desdêmona. Avó – Desdêmona, venha aqui. Desdêmona fantasma – O que quer de novo? Avó – Chegou a hora, enfim. Pegue a carta. Desdêmona fantasma – O que tem isso afinal? (pega a carta) Avó – É sua última sorte. Abra o envelope. Marcelo – Abra a carta. Desdêmona – Você é tirano e patife. Como pode fazer isso comigo? Marcelo – Leia em voz alta. Avó – Leia em voz alta, querida. Desdêmona – Não leio. Tia – Filha, a carta fui eu quem mandei. Se falasse você nunca acreditaria. Nunca, filha. Você estava cega de amor. Marcelo é bom, mas ciumento. Só isso. Eu disse para não ouvir. Marcelo, quantas vezes, eu tentei te dizer? Tudo isso, é nada, é semente plantada em lugar errado, por mau fazendeiro. Marcelo – Tarde demais. Não tente ajudar, piora as coisas. Tia – Pensei em fazer o certo. Quis acertar dessa vez. Leia, filha, leia. É uma carta de sua mãe. Marcelo – Abra a carta. Desdêmona – Não abro, traidor. Não abro. Tia – Corra, filha, corra. Desdêmona – Ele sai, não eu. Traidor, tirano, patife. Saia da minha casa. Saia. Saia... (Desdêmona está gritando, Marcelo a apunhala. O som cessa de vez. Após o silêncio, ouve-se a carta. Desdêmona fantasma está aos pés de Desdêmona viva.) Desdêmona fantasma - CARTA


viernes, 19 de diciembre de 2008

Um professor no inferno. Texto de minha autoria

Foi executada a leitura dramática desse texto na Biblioteca Alceu Amoroso em 01/12/2008, em São Paulo. UM PROFESSOR NO INFERNO PERSONAGENS: JONAS DIABO Cena 1 (Ouvem-se disparos de tiros; Entra o Diabo que está com um bloco de notas fazendo anotações, observa Jonas que entra mancando e gemendo de dor). DIABO abre os braços - Seja bem vindo professor! Estávamos aguardando você! JONAS – Misericórdia! DIABO – Rárárárárá. JONAS, faz o sinal da cruz bem rápido – Rapaz, num brinca com essas coisas. DIABO – Rárárárárá JONAS, sentindo dores – Rapaz deixa de brincar com coisa séria, aliás, você pode me dizer como saio dessa festa? DIABO – Aqui não tem festa. JONAS – Como não, e essa sua fantasia? DIABO – Eu sou assim mesmo. JONAS – Péraí, se esse lugar não é festa a fantasia é o que então? DIABO – Rárárárárá (estende a mão para cumprimentar) prazer, Diabo, seja bem vindo ao inferno! JONAS – Ave Maria. DIABO – Antes de qualquer coisa fique de costas para mim. JONAS – Que papo estranho é esse Seu Coisa Ruim, não fico de jeito nenhum! DIABO, bate no chão seu tridente – Já disse, fique de costas! JONAS, vira-se de costas para o Diabo – Tá bom, tá bom... DIABO – Fique calmo, vou apenas colocar esse par de chifres e esse rabinho que é procedimento padrão. JONAS – Jesusmariajosé, o que está acontecendo? DIABO – Pronto! JONAS – O que está acontecendo? DIABO – Relax Jonas, você simplesmente morreu. JONAS – Como assim morri? DIABO – Ora bolas, estava vivo, agora está morto, (toca o sinal) já ia me esquecendo, você está atrasado para sua aula. JONAS – Calma lá Seu Diabo, acabei de chegar estou todo dolorido do tiro que levei de um ex-aluno. DIABO – Professor, você está no inferno e têm responsabilidades. JONAS – Vai com calma, acabei de morrer, mas será que nem morto eu descanso? DIABO – Está na hora de sua aula! Seus alunos todos alfabetizados, bem alimentados e ansiosos por aprender estão aguardando você. JONAS – Agora quem ri sou eu rárárárárá. DIABO – Jonas, não tire sarro da minha cara. JONAS – Puta que pariu! Pára de brincadeira, esse modelo de escola não existe, que dirá aqui no inferno. DIABO – Não fale palavrão, aqui é um lugar de respeito! Estou falando sério! JONAS, começa a ficar desesperado. DIABO – Rárárárárá Agora você acredita que está no inferno? JONAS – Puta que pariu! Estou fudido! DIABO – Não fale palavrões! JONAS – Tá maluco? Bebeu? DIABO – Maluco eu não estou, mas às vezes eu bebo uma pinga de enxofre com limão. JONAS – Nossa, pinga de enxofre? E com limão? DIABO – Deixa de conversa... Você está atrasado para dar aulas, seus alunos estão aguardando você. JONAS – Mas meu caderno com os planos de aulas ficaram lá na Terra. DIABO: Péraí, quer dizer que você deixa de ser professor sem aquele caderno? JONAS – É que eu tinha encontrado a fórmula ideal para dar aulas, sou um gênio, não? DIABO – Tô vendo o gênio que você se tornou, só consegue dar aulas com aquele bendito caderno. JONAS – É a forma mais fácil de dar aulas, eu enrolo os alunos copiando tudo na lousa, o tempo passa que nem vejo. DIABO, consultando seu bloco de notas – Compreendo. JONAS – O que você tanto consulta nesse bloco de notas? DIABO – Calma, estou terminando de ler. Pronto! Daqui a pouco chegarão 2 milhões de livros para você estudar e preparar suas aulas. JONAS – Ô Diabo, sem o caderno fica difícil, ficar lendo livros me cansa, prefiro os didáticos, são mais gostosinhos de ler e as respostas estão todas no caderno. DIABO – Você não pode se ancorar no que aprendeu. JONAS – Sempre deu certo assim, por que mudar? Não gosto de mudanças. DIABO – Aqui no inferno é diferente, tem que ser dinâmico, dominar competências. JONAS – Mas, mas, o que vai acontecer? DIABO, Faz leitura do bloco de notas – Me acompanhe, você foi autorizado a reencarnar. JONAS – Por quê? Para onde? Não... Não... Como assim? DIABO – A Junta pedagógica infernal decidiu que você terá mais uma chance de mostrar que pode ser um competente professor. JONAS – Eu não sei nem o que dizer. DIABO – Ah, e fique de costas para eu retirar o rabo e os chifres que são propriedade do inferno. JONAS – Que merda hein?! DIABO – Jonas, sem palavrão! (Jonas sai do inferno e o Diabo faz últimas anotações no bloco de notas) Dramaturgo: Douglas Santos



viernes, 18 de enero de 2008

E o professor torna-se eventual

Eis aí um Artigo que lí pela internet e me identifiquei muito, leia e seja contaminado também!

Antes de tecer quaisquer comentários, devo salientar que reconheço a atual situação econômica nacional: crítica para uma grande maioria. Reconheço também a cada vez menor oferta de empregos ao nosso redor e mesmo distante de nós. Ingredientes como estes fatalmente conduzem uma sociedade, inevitavelmente capitalista, à sujeição a tudo e à as sujeitação na vida. Uma prova triste e extremada disto assistimos há tempos nos jornais, os quais às vezes resolvem denunciar mazelas como a escravidão, há muito abolida, mas presente mais do que imaginamos. Assistimos ao caso de homens que para alimentarem-se entregavam-se aos mandos e desmandos de Senhores inescrupulosos que pagam salários-miséria e cobram valores absurdos em simples produtos no interior de estados do Nordeste. Logo, a dívida condena o homem a ser escravo, por sua, talvez, própria moral, mas sobretudo pela subsistência. Os jornais mostram o nordeste e o norte do país, onde estes fatos são mais evidentes e mais gritantes são as situações. Mas e a cem metros de nossas casas em cidades do rico sudeste? Quantas pessoas desempregadas, para ganharem um mínimo que seja, aceitam condições absurdas de emprego ou mesmo de um simples ?bico?? Enfim, o perfil econômico e sócio-econômico de nossos dias configuram condições críticas no que diz respeito à luta pelo pão nosso de cada dia. Precisamos viver, precisamos sobreviver neste mundo selvagem. Então, o que tratarei aqui não condena pessoas, seres humanos, mas sim instituições, mas sim o poder invisível, que determina os destinos. Condeno os vilões invisíveis que existem em nossa sociedade, os quais, em educação, acabam por determinar quem é e o que é o professor. Ser professor até meados do século passado, ou melhor, até final da década de sessenta, representava possuir uma posição privilegiada na sociedade, com bom status econômico e com elevada condição intelectual. O professor era respeitado e reconhecido. Neste tempo, quem ia para a escola eram filhos das classes médias e altas, assim, a educação formal, escolarizada, era para poucos. E o professor era reconhecido por estas classes. A grande massa era mão-de-obra de indústrias, que não exigia grande instrução, pois as funções eram puramente mecânicas no chão de fábrica, bastava ter decorados os movimentos e torná-los automáticos. A esta época, grandes indústrias eram aquelas que possuíam trinta, quarenta mil funcionários. Os tempos mudaram, hoje vemos grandes indústrias com ?meia dúzia? de pessoas. Vejamos, com a crescente mudança no perfil do trabalhador, que progressivamente teve que adquirir novos conhecimentos aos seus ofícios, passou-se a exigir diplomas e certificados de órgãos oficiais a fim de que fossem selecionados melhor os ingressantes no mercado de trabalho e fosse dada uma justificativa ao crescente número de excluídos, ou seja, a escola passou a receber mais gente, e mais gente de classes menos favorecidas economicamente. Surgem expressões como democratização do ensino, alfabetização em massa etc. Aquele professor respeitado começa a receber golpes fortíssimos à sua condição: mais alunos por sala, pois foram aumentadas as vagas, mas não contratados proporcionalmente novos professores; redução nos ganhos por mesmo trabalho, o que o força a quase dobrar a carga horária para manter mesmo rendimento; cresce o número de alunos que necessitam de acompanhamento, porque vêm de ambientes com pouco contato com as práticas letradas, com a escrita, com a informação etc; enfim, alteram-se quase que totalmente o ambiente escolar e as condições de trabalho do professor. Com as mudanças não lhe sobra muito tempo para o preparo das aulas e eis que entra em cena o livro didático, até com respostas prontas no livro do professor para que este sequer tenha que perder tempo na procura destas respostas. Muda-se o modelo de aula e de ensino. A figura do professor começa a sofrer uma alteração junto à sociedade. Inevitavelmente o número de professores tem de aumentar e estes passam cada vez mais a sentarem diante dos alunos apenas para reproduzirem o que o material didático manda. Eis uma forma de se controlar o que se ensina e o que não se ensina. A classe docente definitivamente entra numa depreciação, que desenrola-se num intervalo de vinte, trinta anos. Aquela autoridade intelectual torna-se uma mera figura. Mas não quero falar deste meandro e sim desta figura hoje, quando um novo elemento surge: a falta de professores. Com a depreciação da profissão, pessoas deixaram de querer ser professor. Menos pessoas formam-se professores, os que se formam já não encontram tanta qualidade em sua formação e tudo torna-se ainda mais crítico. Por outro lado, os órgãos oficiais que regulam e promovem a educação não querem alunos fora da escola, muito menos sem aulas: dá-se vida ao professor eventual. Quem é este? É aquele que, como diz a adjetivação, de vez em quando é professor, que ocorre algumas vezes, em certas ocasiões. Quando precisam dele. Não é necessário ser formado, pode estar estudando ainda, mesmo que seja nos primeiros anos de faculdade. Não é necessário ter conhecimento específico, a aula que tiver vaga ele dá. O formando em Letras pode estar na sala de aula falando de termodinâmica, cálculo estequiométrico etc etc etc. Que professor é este? De onde ele vem? Triste, mas pode ser qualquer um. Alguém que resolveu ser professor hoje porque acordou com disposição e necessita de dinheiro. Tem de necessitar, pois as adversidades são grandes. Será este o professor do futuro? Figura descartável, que se encontra aos montes na fila dos desempregados? Triste situação, pois os órgãos oficiais de educação não estão preocupados com o estatuto de um professor, tampouco se este é valorizado ou não, se possui dignidade ou não. Estes órgãos querem apenas números que sejam também oficiais, mas não necessariamente legítimos. Assim o Estado, num cumprimento de recomendações financeiras internacionais, empurra o indivíduo para dentro da escola; as direções de escola, juntamente com inspetores de alunos, empurram estes para dentro da sala de aula; e o professor tranca a porta e suporta a bagunça estabelecida. Particularmente, experimentei dois dias em minha vida como professor eventual. Como opção pessoal, imbuído de um desejo de ajudar a educação pública brasileira, aceitei apenas aulas de português em dias subseqüentes. Descobri que a professora efetiva, a qual eu substituía, nem tinha falado em literatura com alunos de terceiro ano do ensino médio, isto já com mais de um mês letivo. Esta professora faltava eventualmente para professores eventuais substituírem-na, e não tirava licença com medo da direção da escola trocá-la por outro professor efetivo, pelo menos foi o que me narraram seus alunos. Já com a oitava série do fundamental minha experiência foi crucial para eu entender o que é ser professor eventual: um pajem que tem por função manter os alunos dentro da sala, não necessariamente quietos, nem necessariamente aprendendo, e que de vez em quando dá alguma atividade, a qual nem sabe se será considerada pelo professor titular. Ao final de um dos dias em minha experiência eventual pude trocar palavras com uma colega em mesma condição: uma mulher com aspecto de bastante cansada, com voz desgastada e reclamando que naquele dia não pôde ir para sua aula em segundo ano do curso de Letras, pois dera quatorze aulas eventuais, que foram desde o português até a difícil física. Eu não tinha muito o que falar àquela mulher. Expresso-me agora neste texto, que, espero, possa servir ao menos como ponto de reflexão em torno desta questão. Sou professor porque tenho paixão em dar aula. Gostaria que todos pudessem sentir o mesmo e que ser chamado de professor voltasse a ser algo respeitável, não pelo status econômico, mas sim pela importância de seu papel em nossa sociedade.

Artigo do Prof. Jovir sobre Professor Eventual