viernes, 19 de diciembre de 2008

Um professor no inferno. Texto de minha autoria

Foi executada a leitura dramática desse texto na Biblioteca Alceu Amoroso em 01/12/2008, em São Paulo. UM PROFESSOR NO INFERNO PERSONAGENS: JONAS DIABO Cena 1 (Ouvem-se disparos de tiros; Entra o Diabo que está com um bloco de notas fazendo anotações, observa Jonas que entra mancando e gemendo de dor). DIABO abre os braços - Seja bem vindo professor! Estávamos aguardando você! JONAS – Misericórdia! DIABO – Rárárárárá. JONAS, faz o sinal da cruz bem rápido – Rapaz, num brinca com essas coisas. DIABO – Rárárárárá JONAS, sentindo dores – Rapaz deixa de brincar com coisa séria, aliás, você pode me dizer como saio dessa festa? DIABO – Aqui não tem festa. JONAS – Como não, e essa sua fantasia? DIABO – Eu sou assim mesmo. JONAS – Péraí, se esse lugar não é festa a fantasia é o que então? DIABO – Rárárárárá (estende a mão para cumprimentar) prazer, Diabo, seja bem vindo ao inferno! JONAS – Ave Maria. DIABO – Antes de qualquer coisa fique de costas para mim. JONAS – Que papo estranho é esse Seu Coisa Ruim, não fico de jeito nenhum! DIABO, bate no chão seu tridente – Já disse, fique de costas! JONAS, vira-se de costas para o Diabo – Tá bom, tá bom... DIABO – Fique calmo, vou apenas colocar esse par de chifres e esse rabinho que é procedimento padrão. JONAS – Jesusmariajosé, o que está acontecendo? DIABO – Pronto! JONAS – O que está acontecendo? DIABO – Relax Jonas, você simplesmente morreu. JONAS – Como assim morri? DIABO – Ora bolas, estava vivo, agora está morto, (toca o sinal) já ia me esquecendo, você está atrasado para sua aula. JONAS – Calma lá Seu Diabo, acabei de chegar estou todo dolorido do tiro que levei de um ex-aluno. DIABO – Professor, você está no inferno e têm responsabilidades. JONAS – Vai com calma, acabei de morrer, mas será que nem morto eu descanso? DIABO – Está na hora de sua aula! Seus alunos todos alfabetizados, bem alimentados e ansiosos por aprender estão aguardando você. JONAS – Agora quem ri sou eu rárárárárá. DIABO – Jonas, não tire sarro da minha cara. JONAS – Puta que pariu! Pára de brincadeira, esse modelo de escola não existe, que dirá aqui no inferno. DIABO – Não fale palavrão, aqui é um lugar de respeito! Estou falando sério! JONAS, começa a ficar desesperado. DIABO – Rárárárárá Agora você acredita que está no inferno? JONAS – Puta que pariu! Estou fudido! DIABO – Não fale palavrões! JONAS – Tá maluco? Bebeu? DIABO – Maluco eu não estou, mas às vezes eu bebo uma pinga de enxofre com limão. JONAS – Nossa, pinga de enxofre? E com limão? DIABO – Deixa de conversa... Você está atrasado para dar aulas, seus alunos estão aguardando você. JONAS – Mas meu caderno com os planos de aulas ficaram lá na Terra. DIABO: Péraí, quer dizer que você deixa de ser professor sem aquele caderno? JONAS – É que eu tinha encontrado a fórmula ideal para dar aulas, sou um gênio, não? DIABO – Tô vendo o gênio que você se tornou, só consegue dar aulas com aquele bendito caderno. JONAS – É a forma mais fácil de dar aulas, eu enrolo os alunos copiando tudo na lousa, o tempo passa que nem vejo. DIABO, consultando seu bloco de notas – Compreendo. JONAS – O que você tanto consulta nesse bloco de notas? DIABO – Calma, estou terminando de ler. Pronto! Daqui a pouco chegarão 2 milhões de livros para você estudar e preparar suas aulas. JONAS – Ô Diabo, sem o caderno fica difícil, ficar lendo livros me cansa, prefiro os didáticos, são mais gostosinhos de ler e as respostas estão todas no caderno. DIABO – Você não pode se ancorar no que aprendeu. JONAS – Sempre deu certo assim, por que mudar? Não gosto de mudanças. DIABO – Aqui no inferno é diferente, tem que ser dinâmico, dominar competências. JONAS – Mas, mas, o que vai acontecer? DIABO, Faz leitura do bloco de notas – Me acompanhe, você foi autorizado a reencarnar. JONAS – Por quê? Para onde? Não... Não... Como assim? DIABO – A Junta pedagógica infernal decidiu que você terá mais uma chance de mostrar que pode ser um competente professor. JONAS – Eu não sei nem o que dizer. DIABO – Ah, e fique de costas para eu retirar o rabo e os chifres que são propriedade do inferno. JONAS – Que merda hein?! DIABO – Jonas, sem palavrão! (Jonas sai do inferno e o Diabo faz últimas anotações no bloco de notas) Dramaturgo: Douglas Santos



viernes, 18 de enero de 2008

E o professor torna-se eventual

Eis aí um Artigo que lí pela internet e me identifiquei muito, leia e seja contaminado também!

Antes de tecer quaisquer comentários, devo salientar que reconheço a atual situação econômica nacional: crítica para uma grande maioria. Reconheço também a cada vez menor oferta de empregos ao nosso redor e mesmo distante de nós. Ingredientes como estes fatalmente conduzem uma sociedade, inevitavelmente capitalista, à sujeição a tudo e à as sujeitação na vida. Uma prova triste e extremada disto assistimos há tempos nos jornais, os quais às vezes resolvem denunciar mazelas como a escravidão, há muito abolida, mas presente mais do que imaginamos. Assistimos ao caso de homens que para alimentarem-se entregavam-se aos mandos e desmandos de Senhores inescrupulosos que pagam salários-miséria e cobram valores absurdos em simples produtos no interior de estados do Nordeste. Logo, a dívida condena o homem a ser escravo, por sua, talvez, própria moral, mas sobretudo pela subsistência. Os jornais mostram o nordeste e o norte do país, onde estes fatos são mais evidentes e mais gritantes são as situações. Mas e a cem metros de nossas casas em cidades do rico sudeste? Quantas pessoas desempregadas, para ganharem um mínimo que seja, aceitam condições absurdas de emprego ou mesmo de um simples ?bico?? Enfim, o perfil econômico e sócio-econômico de nossos dias configuram condições críticas no que diz respeito à luta pelo pão nosso de cada dia. Precisamos viver, precisamos sobreviver neste mundo selvagem. Então, o que tratarei aqui não condena pessoas, seres humanos, mas sim instituições, mas sim o poder invisível, que determina os destinos. Condeno os vilões invisíveis que existem em nossa sociedade, os quais, em educação, acabam por determinar quem é e o que é o professor. Ser professor até meados do século passado, ou melhor, até final da década de sessenta, representava possuir uma posição privilegiada na sociedade, com bom status econômico e com elevada condição intelectual. O professor era respeitado e reconhecido. Neste tempo, quem ia para a escola eram filhos das classes médias e altas, assim, a educação formal, escolarizada, era para poucos. E o professor era reconhecido por estas classes. A grande massa era mão-de-obra de indústrias, que não exigia grande instrução, pois as funções eram puramente mecânicas no chão de fábrica, bastava ter decorados os movimentos e torná-los automáticos. A esta época, grandes indústrias eram aquelas que possuíam trinta, quarenta mil funcionários. Os tempos mudaram, hoje vemos grandes indústrias com ?meia dúzia? de pessoas. Vejamos, com a crescente mudança no perfil do trabalhador, que progressivamente teve que adquirir novos conhecimentos aos seus ofícios, passou-se a exigir diplomas e certificados de órgãos oficiais a fim de que fossem selecionados melhor os ingressantes no mercado de trabalho e fosse dada uma justificativa ao crescente número de excluídos, ou seja, a escola passou a receber mais gente, e mais gente de classes menos favorecidas economicamente. Surgem expressões como democratização do ensino, alfabetização em massa etc. Aquele professor respeitado começa a receber golpes fortíssimos à sua condição: mais alunos por sala, pois foram aumentadas as vagas, mas não contratados proporcionalmente novos professores; redução nos ganhos por mesmo trabalho, o que o força a quase dobrar a carga horária para manter mesmo rendimento; cresce o número de alunos que necessitam de acompanhamento, porque vêm de ambientes com pouco contato com as práticas letradas, com a escrita, com a informação etc; enfim, alteram-se quase que totalmente o ambiente escolar e as condições de trabalho do professor. Com as mudanças não lhe sobra muito tempo para o preparo das aulas e eis que entra em cena o livro didático, até com respostas prontas no livro do professor para que este sequer tenha que perder tempo na procura destas respostas. Muda-se o modelo de aula e de ensino. A figura do professor começa a sofrer uma alteração junto à sociedade. Inevitavelmente o número de professores tem de aumentar e estes passam cada vez mais a sentarem diante dos alunos apenas para reproduzirem o que o material didático manda. Eis uma forma de se controlar o que se ensina e o que não se ensina. A classe docente definitivamente entra numa depreciação, que desenrola-se num intervalo de vinte, trinta anos. Aquela autoridade intelectual torna-se uma mera figura. Mas não quero falar deste meandro e sim desta figura hoje, quando um novo elemento surge: a falta de professores. Com a depreciação da profissão, pessoas deixaram de querer ser professor. Menos pessoas formam-se professores, os que se formam já não encontram tanta qualidade em sua formação e tudo torna-se ainda mais crítico. Por outro lado, os órgãos oficiais que regulam e promovem a educação não querem alunos fora da escola, muito menos sem aulas: dá-se vida ao professor eventual. Quem é este? É aquele que, como diz a adjetivação, de vez em quando é professor, que ocorre algumas vezes, em certas ocasiões. Quando precisam dele. Não é necessário ser formado, pode estar estudando ainda, mesmo que seja nos primeiros anos de faculdade. Não é necessário ter conhecimento específico, a aula que tiver vaga ele dá. O formando em Letras pode estar na sala de aula falando de termodinâmica, cálculo estequiométrico etc etc etc. Que professor é este? De onde ele vem? Triste, mas pode ser qualquer um. Alguém que resolveu ser professor hoje porque acordou com disposição e necessita de dinheiro. Tem de necessitar, pois as adversidades são grandes. Será este o professor do futuro? Figura descartável, que se encontra aos montes na fila dos desempregados? Triste situação, pois os órgãos oficiais de educação não estão preocupados com o estatuto de um professor, tampouco se este é valorizado ou não, se possui dignidade ou não. Estes órgãos querem apenas números que sejam também oficiais, mas não necessariamente legítimos. Assim o Estado, num cumprimento de recomendações financeiras internacionais, empurra o indivíduo para dentro da escola; as direções de escola, juntamente com inspetores de alunos, empurram estes para dentro da sala de aula; e o professor tranca a porta e suporta a bagunça estabelecida. Particularmente, experimentei dois dias em minha vida como professor eventual. Como opção pessoal, imbuído de um desejo de ajudar a educação pública brasileira, aceitei apenas aulas de português em dias subseqüentes. Descobri que a professora efetiva, a qual eu substituía, nem tinha falado em literatura com alunos de terceiro ano do ensino médio, isto já com mais de um mês letivo. Esta professora faltava eventualmente para professores eventuais substituírem-na, e não tirava licença com medo da direção da escola trocá-la por outro professor efetivo, pelo menos foi o que me narraram seus alunos. Já com a oitava série do fundamental minha experiência foi crucial para eu entender o que é ser professor eventual: um pajem que tem por função manter os alunos dentro da sala, não necessariamente quietos, nem necessariamente aprendendo, e que de vez em quando dá alguma atividade, a qual nem sabe se será considerada pelo professor titular. Ao final de um dos dias em minha experiência eventual pude trocar palavras com uma colega em mesma condição: uma mulher com aspecto de bastante cansada, com voz desgastada e reclamando que naquele dia não pôde ir para sua aula em segundo ano do curso de Letras, pois dera quatorze aulas eventuais, que foram desde o português até a difícil física. Eu não tinha muito o que falar àquela mulher. Expresso-me agora neste texto, que, espero, possa servir ao menos como ponto de reflexão em torno desta questão. Sou professor porque tenho paixão em dar aula. Gostaria que todos pudessem sentir o mesmo e que ser chamado de professor voltasse a ser algo respeitável, não pelo status econômico, mas sim pela importância de seu papel em nossa sociedade.

Artigo do Prof. Jovir sobre Professor Eventual




jueves, 13 de diciembre de 2007

Arte circense presente em minha vida

Desde tenra idade tenho admiração pela arte circense, ainda quando morava no interior ía sempre acima de três vezes assistir ao espetáculo que fincava as estacas e armava lonas anualmente, os espetáculos sempre se repetiam, mas para uma criança era mais magia, ou seja, um certo encantamento propagado por palhaços, apresentações acrobáticas e globos da morte que enchiam os olhos, sem contar no deslumbramento ante animais que só se via através da televisão. Hoje, depois de passados muitíssimos carnavais, aliás, nem tantos assim, mas o suficiente para perceber que não sou mais criança, fui a um desses circos da renomada capital do estado paulista, não houve tanta admiração assim, há uma apelação ao aparato tecnológico, um certo “entrar no século das revoluções por minuto”, em que as coisas vão se modificando com rapidez e o novo se torna velho em curto espaço de tempo.

Acredito que antes de uma análise mais crítica é relevante situarmos o circo na História humana que remonta à imprecisos antecedentes históricos que estão cercados de lendas e versões desencontradas. A mais convincente é a de que surgiu na China. Na Era do imperador Wu, da dinastia Han (220-206 Ac.), um torneio de treinamento de combate chamado Pai-Hsi (os cem espetáculos) juntou tantas apresentações acrobáticas surpreendentes que o imperador decidiu que, a partir dali, todos os anos, seriam realizados espetáculos do gênero durante o Festival da Primeira Lua. De ano a ano, os programas foram enriquecidos com novos números: equilíbrio sobre a corda bamba, sobre as mãos e sobre a percha. Jogo de pelota (futebol), Dança da espada, Magia, Tragar espadas, Engolir fogo e inúmeras outras ainda hoje apresentadas em circos.

Bem, depois dessa descrição histórica da origem circense vamos ao cerne da questão. Recentemente retornei ao interior paranaense e não deixei de apreciar uma noite de espetáculo dessa arte circense, pasmem, enquanto não dava início ao espetáculo um moderno projetor jogava nas enormes cortinas imagens nítidas de um show de dupla sertaneja, muito admirada por aquelas regiões sulinas. Instantes antes das performances circenses os sertanejos são interrompidos e pasmem novamente, inicia-se um minuto de propaganda dos patrocinadores, que nada mais são que as lojas, supermercados da pequena burguesia regional, sem deixar é claro de agradecer ao Prefeito pelo espaço cedido.

O espetáculo inicia-se ao som de música alta e um apresentador que além dessa função também é palhaço e domador de animais, um verdadeiro polivalente. O amadurecimento intelectual me fez perceber situações importantes. As piadas dos palhaços.

Pois são esses senhores de narizes vermelhos que fazem a alegria da criançada e de alguns adultos. Percebi que um circo do interior faz piadas bem mais ofensivas e até preconceituosas em oposição a um circo na capital paulista, um menino-espectador é levado ao picadeiro e chamado de burro pelo palhaço, o menino fica brabo, ganha uma bola de presente e fica por isso. Numa outra situação ele chama três mães como participantes, uma ele diz que só está ali porque abriram a porta do cemitério, outra era a Tris, Tristeza da família. A terceira tinha cara de capivara, tudo isso segundo o palhaço. Se já não bastasse isso, ao meu lado estava uma senhora de idade avançada, ela e muitas outras pessoas estavam achando aquilo horroroso, crianças choravam de tanto rir. Mas a meu ver o cataclisma estava por vir, dois anões, vestidos como noiva e noivo, era o casal global “tô doido”, Jujú e Jajá. Quanto menos se espera chega ao picadeiro um Padre também anão, rezam os três simultaneamente a sacra oração católica do Pai-Nosso e no fim da oração os três fazem um gesto obsceno, aquele de com os dois braços levados para frente do corpo são rapidamente levados no sentido do corpo. Fiquei impactado com a cena, não mais que muitas senhoras conservadoras que muito admiram toda a simbologia que envolve uma oração e se vêem num cena de iconoclasta. Ví uma atitude iconoclasta, ou seja, aquele que tenta destruir idéias religiosas, opiniões estabelecidas e tradições, tudo isso por conta dos palhaços (consciente ou não), que se fosse realizada numa grande cidade duvido que escapassem de processos judiciais, por conta dessa onda politicamente correta que assola o país.

Instigou-me a escrever esse pequeno texto uma incontrolável percepção de situações completamente divergentes, o circo do interior parece já viver o impacto da modernidade, ou seria pós-modernidade? com projetor de imagens e propagandas contrastando com uma linguagem verbal que facilmente nos tempos atuais é tida como politicamente incorreta e preconceituosa. Já no espetáculo paulista não encontrei essa linguagem verbal ofensiva e até iconoclasta, muito pelo contrário, os risos se concentraram quando palhaços faziam animaizinhos ao dobrarem com precisão coloridas bexigas e compridas ou mesmo pintavam o rosto de crianças lindas borboletas, leões...

Ao que tudo indica o circo do interior paranaense pouco mudou na sua essência lingüística, possui de certa forma maior liberdade ao abordar temáticas religiosas por exemplo, pois eu assistia quando criança, mas não percebia, hoje já assimilo com clareza as diferenças.

Douglas N. dos Santos